Quem gosta mais de cachorro do que de gente tem problema

 
Esse inglês resolveu viver como um cão. Ele tem suas razões
Reprodução/Daily Mail
Em mais um dia em que o país da tragédia pronta conta seus mortos: são pelo menos 9 as vítimas das chuvas torrenciais no Rio de Janeiro, as redes sociais, em seu supremo deslocamento da vida real, choram a morte da cachorrinha do cantor sertanejo Zezé Di Camargo. O cantor publicou um post em seu Instagram em que se revela devastado com a morte de Mel, que não resistiu a uma parada cardíaca. A dor de Zezé pode até ser compreensível, apesar da lacrimosa despedida em que ele diz ter recebido uma das piores notícias de sua vida ao saber da morte da cachorrinha.

O que assusta é ver a comoção de quem jamais deu um biscroc sequer para a Mel, mas se uniu de coração em fragalhos ao sentimento do cantor. Estaríamos todos loucos? Moro no centro da cidade de São Paulo e convivia diariamente com uma moradora de rua, idosa que apesar da impertinência e da irritação, era um ser humano vivendo no limite da dignidade, sujeita a chuva, ao frio, a falta de carinho e as agressões tão comuns a quem, idoso ou não, disputa o melhor espaço na sarjeta e o último cobertor, embaixo da melhor marquise. A tal senhora que nunca soube o nome, sofria de dores evidentes e seu estado se deteriorava rapidamente, aos olhos de quem passasse por ela. 

Dei ajudas eventuais, pontuais como comprar água de coco para aliviar ser uma dor de estômago crônica. Pois bem, a tal senhora tinha um cachorro, simpático, grandão e peludo que como ela adoeceu. Se instaurou então na região uma corrente de ajuda que incluiu ida ao veterinário, melhores rações e remédios e pelo que soube o cão acabou adotado por um abonado desembargador. Da senhora, não sabe-se nada. Ela sumiu de repente e o que consta é que teria morrido numa noite de frio dessas.  Seus cobertores ficaram lá por um tempo, sujos, amassados, mal cheirosos até o tempo e a indiferença os engoliu. É óbvio que o cachorro é muito mais fácil de ajudar, sem as complexidades, as idiossincrasias tão chatas de nós, os imperfeitos humanos. Mas então é melhor abandonar seus semelhantes e viver com os animais? 


Ficou uma lição da estranheza humana que preferiu salvar o cachorro a acolher sua dona. Fique triste com a dor de Zezé, mas reserve lágrimas para uma família alvejada por engano por 80 tiros, para aqueles que se foram nas águas do Rio de Janeiro, na lama de Brumadinho ou pelas balas de Suzano. Em tempos tão bicudos, os cachorros podem esperar. 

Celso Fonseca, do R7


Quem gosta mais de cachorro do que de gente tem problema Quem gosta mais de cachorro do que de gente tem problema Reviewed by In Foco RS on segunda-feira, abril 15, 2019 Rating: 5